Por Lu Dourado
Sobre preencher o que já está completo e deixar derramar...
Se você for embora, eu não vou morrer. Desses vinte e nove anos, eu vivi vinte e oito - muito bem - sem você.
Se você sair por aquela porta pra nunca mais voltar, talvez eu chore.
Eu vou sobreviver. Mas nada vai se comparar a tua presença.
Vai sobrar um travesseiro nessa cama e uma escova de dentes no banheiro.
O copo do homem aranha vai ter que ficar escondido no armário, porque em outra mão não vai ser o que me tira um sorriso. Vai ser um copo qualquer ou uma piada sem graça.
Eu não vou ter com quem brigar pelo controle remoto.
Sem você aqui, nenhuma almofada vai substituir o encaixe perfeito que os teus ombros têm pra minha cabeça.
Se você for embora, eu vou ter que mudar as roupas que eu uso, porque cada uma delas me lembra um dia especial que estive com você. Depois de você, aliás, todos os dias foram especiais.
Eu vou ter que pintar as paredes da casa, mudar os móveis na esperança de parecer estar em outro lugar, porque cada canto aqui foi cenário das nossas loucuras.
Se você passar por aquela porta eu não vou ter com quem dividir um guarda chuva e se tiver, vai me irritar molhar um braço.
Você também não vai conseguir olhar um esmalte numa prateleira qualquer sem dar um sorrisinho como quem diz Esse ela já tem, também...
Seus dias não terão a mesma graça sem minhas birras e caretas que faço quando estou brava.
Sem minha presença você vai ter tanto tempo de sobra que vai te faltar com o que se ocupar.
Se eu não tiver do teu lado, não vai mais fazer sentido a toalha molhada em cima da cama.
Por isso eu te peço que fique.
Fique, mesmo se estiver pensando em ir.
A gente sabe viver um sem o outro. Já amadurecemos. Já aprendemos que dor de amor não dura pra sempre. Já somos completos.
Mas nos transbordamos.
Excedemos qualquer limite do que se pode ter, ultrapassamos todas as capacidades e confundimos qualquer unidade de medida.
Te peço que fique porque eu sei sorrir sozinha, mas com você meu sorriso alcança as orelhas.
